Em tempos eleitorais, definir posição contra ou pró aborto é quase motivo para apedrejamento em praça pública. É acusação de infanticídio, fascismo, anticristo e todo o tipo de leviandade.
Esquecendo temporariamente a corrida presidencial (será possível? Com esses vampiros escoando lixo eleitoral através de TV, internet...), o aborto é sim tema doloroso, ferida escondida da sociedade mundial, sobretudo países predominantemente cristãos e em desenvolvimento (alguma identificação?)
Começa com o machismo bíblico disseminado há séculos, aquela ladainha eclesiástica de que mulher foi feita para procriar, ser submissa ao seu marido, cuidar do lar...
(Em outros tempos a Igreja Católica disseminava a máxima de que mulheres não tinham alma [faziam o mesmo com negros e outras minorias sociais]. E o que não tem alma, o que é? Uma coisa, objeto... e objetos são feitos para...? Serem usados, certo?!)
Embora eu partilhe da opinião de Saramago de que “A bíblia é um manual de crueldades” não entrarei no mérito da questão.
Pior mesmo é a maneira obtusa como a Bíblia é interpretada...
Mas voltando, a mulher sempre foi e ainda é vista, como servente social. E isso é respaldado, óbvio, pelas próprias mulheres, seja quando aceitam levar um tapa ou um xingamento do seu companheiro, seja quando arreganham as pernas nas TVs e revistas, seja quando têm filhos contra a sua vontade...
O machismo está no DNA do Brasil, desde as diferenças salariais entre gêneros, até os mais intrínsecos detalhes. Já reparou como pai boçal trata diferenciadamente filhO de filhA. Quem nunca ouviu um quadrúpede (sem querer ofender a espécie) se dirigir a seu filho dizendo: “mostra o piupiu para ele (a)”. O pênis é objeto de orgulho, é peça de exposição, é a medalha no peito, ou melhor, no baixo ventre. A mulher sempre é educada a sentar de pernas fechadas, a se comportar, a não xingar... Entra na corrente sanguínea. Alguém ai já viu mulher falar a vontade sobre temas como menstruação, masturbação, sexo sem compromisso...? E se fala, as pessoas reagem naturalmente? É o poder do pudor.
No Brasil estima-se que um milhão de mulheres abortam anualmente, e cerca de 25% dos casos tem como conseqüência a internação por complicações do ato. (Precisa dizer que a maioria dessas mulheres são negras e vivem nas regiões Norte e Nordeste?) Essas mulheres se internam em hospitais públicos, e nestes sofrem negligência, maus tratos (na hora da curetagem, por exemplo, é praxe utilizar o fórceps de maneira que a mulher sinta dor. É uma chibata do século XXI). Estranho que essas coisas não passem no Jornal Nacional... Aborto é uma questão política e social, e não deveria ter nada a ver com religiosidade ou convicção pessoal.
Ai vem àquela estúpida retórica de que mulher que tem gravidez indesejada é irresponsável “existe camisinha para isso”. Como se a questão fosse contraceptiva e não educacional.
Ou pior ainda, têm os “pró-vida”, que defendem o não direito da mulher decidir se irá ter ou não um filho que ELA terá que cuidar o resto da vida (porque criança no Brasil não tem pai).
O mesmo governo que lhes nega direito de escolha, é o mesmo carrasco que lhe vira as costas quando tem que oferecer acesso a saúde, educação, cultura, emprego, lazer, segurança, dignidade para mãe e para o filho inesperado (e por que não, indesejado?).
É feita uma demonização da mulher que aborta, como se ela fosse um monstro, uma criatura que andasse vagando por ai, e não uma mulher comum que convive entre nós, que ama, odeia, trabalha, come, fala, e que bem estruturada pode vir a engravidar novamente.
Utiliza-se sensacionalismo, sentimentalismo e artifícios baratos, para vender a idéia de que interromper uma gestação vai contra a família (como se todas as mulheres do mundo fossem decidir abortar e as famílias seriam extintas), como se fosse algo hediondo, quando pavoroso mesmo é forçar mulheres a terem filhos que elas não vão educar, e depois vão jogar os tiranos no mundo, para servir de massa de manobra, ter um subemprego, ou ser um marginal a solta por ai, que vai cobrar a sua maneira, a dívida que a sociedade tem com ele. E o preço é muito alto.